quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"O Medo", em menos de um segundo


A amígdala é a central do medo. Quando uma doença cerebral destruir a amígdala(mas não outras estruturas do cérebro) o medo desaparece do nosso repertório mental. Tornamo-nos incapazes de identificar expressões de medo, no nosso e no rosto dos outros.
Se alguém apontasse um revólver na cabeça de alguém com as amígdalas destruídas, logicamente saberia intelectualmente que estava com medo, mas não sentiria medo.
O medo é um bom exemplo para compreender a dinâmica neural da emoção.
Na evolução, tem um destaque especial: talvez mais que qualquer outra emoção, é fundamental para a sobrevivência.
O medo é a praga da vida diária, fazendo-nos sofrer inquietações, angústia e preocupações comuns ou, no extremo patológico, ataques de pânico, fobias ou distúrbios obsessivos compulsivos.
Vamos supor que, estamos sozinhos em casa numa noite, a ler um livro e, de repente, ouvimos um estrondo em outro lugar. O que se passa no nosso cérebro nos próximos momentos oferece uma janela para os circuitos neurais do medo e o papel da amígdala como sistema de alarme.
O primeiro circuito cerebral envolvido simplesmente recebe esse som como ondas físicas brutas e o transforma na linguagem do cérebro para nos alertar. Esse circuito vai do ouvido ao tronco cerebral e depois ao tálamo. Dali, dois ramos separam-se: um feixe menor de projecções leva à amígdala e ao vizinho hipocampo; o outro caminho, mais longo, leva ao córtex auditivo no lobo temporal, onde os sons são classificados e compreendidos.
O hipocampo, um sítio de armazenamento chave da memória, classifica rapidamente esse 'estrondo" comparando-o com outros sons semelhantes que já ouvimos, para saber se é conhecido. É um "estrondo" que reconhece facilmente?
Enquanto isso, o córtex auditivo faz uma análise mais sofisticada do som, para entender a sua origem. Será o gato? Uma janela batendo ao vento? Um ladrão?
O córtex auditivo apresenta sua hipótese - pode ser o gato derrubando a lâmpada da mesa, digamos, mas também pode ser um ladrão e envia essa mensagem para a amígdala e o hipocampo, que rapidamente a comparam com lembranças semelhantes.
Se a conclusão é tranquilizadora (apenas a janela que bate quando venta muito), o alerta geral não sobe para o nível seguinte. Mas se ainda não temos a certeza do que é!? Outra bobina de circuitos, ressonando entre a amígdala, o hipo campo e o córtex pré-frontal, aumenta sua incerteza e prende sua atenção, deixando ainda mais preocupado com a identificação da origem do som. Se dessa análise mais precisa não vem nenhuma resposta satisfatória, a amígdala dispara um alarme, na sua área central e activa o hipotálamo, o tronco cerebral e o sistema nervoso autónomo. A soberba arquitectura da amígdala como sistema central de alarme do cérebro torna-se evidente nesse momento de apreensão e ansiedade subliminar. Os vários feixes de neurónios na amígdala têm, cada um, um conjunto distinto de projecções com receptores afinados para diferentes neurotransmissores, como as empresas de alarme doméstico, onde os operadores estão de preparados para enviar chamadas aos bombeiros, à polícia e a um vizinho sempre que um sistema de segurança doméstico anuncia problemas.
As diferentes partes da amígdala recebem diferentes informações. Para o núcleo lateral da amígdala vão projecções do tálamo e dos córtices auditivo e visual.
Os cheiros, via bulbo olfactivo, vão para a área corticomedial da amígdala, e os gostos e mensagens vindos das vísceras vão para a área central.
Esses sinais que chegam, fazem da amígdala uma sentinela contínua, escrutinando toda experiência sensória. Da amígdala, estendem-se projecções para toda parte importante do cérebro. Das áreas centrais e mediais, um ramo vai para as áreas do hipotálamo que secretam a substância de resposta de emergência, o hormónio que libera corticotropina (CRH), que mobiliza a reacção lutar-ou-fugir, via uma cascata de outros hormónios. A área basal da amígdala envia ramos para o corpus striatum ligando-se ao sistema de movimento do cérebro. E, via núcleo central, a amígdala envia sinais para o sistema nervoso autónomo pela medula, e activa uma ampla gama de respostas exageradas no sistema cardiovascular, nos músculos e nas entranhas. Da área basolateral partem ramos para o córtex cingulado e das fibras como "cinzento central", células que regulam os grandes músculos do esqueleto. São essas células que fazem um cachorro rosnar e arqueiam as costas do gato que ameaça um invasor de seu território. Nos seres humanos esses mesmos circuitos comprimem os músculos das cordas vocais, criando a voz esganiçada de pavor. Ainda outro caminho que parte da amígdala leva ao locus ceruleus no tronco cerebral, que por sua vez fabrica a norepinefrina (também chamada de "noradrenaiina) e a dissemina por todo o cérebro. O efeito final da norepinefrina é aumentar a reactividade geral das áreas do cérebro que a recebem, tornando os circuitos sensórios mais sensíveis. A norepinefrina impregna o córtex, o tronco cerebral e o próprio sistema límbico, em essência deixando o cérebro tinindo.
Agora mesmo o mais comum estalito da casa pode enviar um tremor de medo por todo o seu corpo. A maioria dessas mudanças passam-se fora da consciência, de modo que ainda não sabemos que estamos com medo.
Mas quando começamos de facto a senti-lo, isto é, quando a ansiedade que estava inconsciente chega à consciência a amígdala inconscientemente ordena uma resposta em larga escala. Manda sinais às células no tronco cerebral para que ponhamos uma expressão de medo no rosto, deixando-nos nervosos e assustados, paralisam movimentos sem relação que de seus músculos tinham em andamento, acelerem o ritmo cardíaco e elevem a pressão do sangue, e reduzam a respiração (de repente conte-mos a respiração ao primeiro sentir do medo, para assim melhor ouvir aquilo que temos medo). Isso é apenas parte de uma ampla série de mudanças cuidadosamente coordenadas que a amígdala e áreas relacionadas organizam quando comandam o cérebro numa crise.
Enquanto isso, a amígdala, junto com o interligado hipocampo, dirige as células que enviam neurotransmissores-chave, por exemplo, para disparar liberações da dopamina, que o leva a fixar a atenção na origem do medo os sons estranhos e põe seus músculos de prontidão para reagir de acordo. Ao mesmo tempo, a amígdala envia sinais às áreas sensórias da visão e atenção, assegurando-se de que os olhos procurem o que é mais importante para a emergência imediata. Simultaneamente, sistemas da memória cortical são reembaralhados para que o conhecimento e as lembranças mais importantes para essa urgência emocional sejam mais rapidamente trazidos de volta, tomando precedência sobre outros fios de pensamento menos importantes.
Assim que esses sinais são enviados, nós estamos sintonizados com medo total:
-Consciência do aperto das entranhas, do coração acelerado, da contracção dos músculos do pescoço e dos ombros, do tremor nos membros; o corpo  imobiliza-se no lugar, enquanto força-mos a atenção em busca de outros sons, e a mente dispara com possíveis perigos ocultos e meios de responder. Toda essa sequência da surpresa à incerteza, à apreensão e ao medo pode comprimir-se em mais ou menos um segundo.

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