Vindo de onde venho, observando o que me rodeia e
reflectindo diariamente comigo mesmo, por várias vezes questiono;
-
"a ignorância é felicidade?".
No
meio de uma conversa irónica, com uma pitada de ofensividade mutua, num acto
irreflectido saiu-me esta questão para com quem estava em debate. Não sendo uma
pergunta alheia aos meus pensamentos, decidi debruçar-me sobre o tema mesmo
sabendo que é um pouco complexo, de elevados significados e implicações
filosóficas.
São
muitos aos filmes onde esta questão acaba por ser levantada pelos personagens,
principalmente naqueles filmes em que o ser humano não passa de uma marioneta,
que pouco ou nada sabe sobre a "suposta verdadeira" realidade. Onde
aqueles que vão descobrindo a verdade, também descobrem os perigos que correm após
esse rompimento com a vida “normal”, onde mais tarde se questionam como tão
mais felizes eram antes de saber a verdade.
Lembro-me de alguns filmes e até desenhos animados. O Matrix
é aquele onde mais se faz notar os efeitos dessa descoberta. Nos desenhos
animados é o Dragon Ball.
Quem
nunca trilhou caminhos bem definidos para alcançar o conhecimento sobre
"algo", e depois de alcançado, quando se olha para trás, chega-se à
conclusão que, era mais feliz no tempo da ignorância sobre a matéria descoberta.
-
Como eu seria muito mais feliz se não soubesse a verdade!
Pois
é bem verdade, conhecer, muitas vezes, é atormentador.
Há
uma história bem interessante, sobre tudo isto, a história retrata alguém que
conhece os dois lados da moeda: a ignorância e o conhecimento.
Abaixo segue um excerto de um texto muito interessante
sobre a teoria do conhecimento.
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O
Filósofo Grego Platão, em sua Alegoria da Caverna, abordada a partir da Teoria
do Conhecimento, ensina que a vida do ser humano pode ser divida em 3 etapas:
1º) A primeira etapa, a Agnosis,
é a etapa da Ignorância, representada, em sua alegoria, por homens presos,
desde a infância, no interior de uma caverna escura, olhando sombras reflectidas
na parede, enquanto entendem ser esta a única realidade/verdade existente, já
que não conheciam outra. Segundo Platão, todos os seres humanos, sem excepção,
já nascem nessa etapa, na ignorância. A maior parte das pessoas jamais
sairão dela. Nascerão, viverão e morrerão na ignorância.
2ª) A segunda etapa, o Doxa,
é a etapa da desconfiança ou opinião, representada na alegoria, pelo
prisioneiro que consegue se libertar e olhar, pela primeira vez em sua vida, em
outra direcção, para a entrada da caverna, quando percebe que existe algo além
das sombras que entendia como a única verdade existente, porém, ainda não
consegue discernir com clareza o que consegue ver no exterior da caverna, mas
tem, agora, certeza de uma coisa: existe algo além das sombras que via. Segundo
Platão, algumas pessoas transcendem à Agnose e conseguem chegar a essa etapa,
mas não todas.
3ª) Finalmente, a terceira etapa, Episteme,
é a etapa do “Conhecimento”. Quando o indivíduo que conseguiu libertar-se de
sua cadeia, imposta desde a infância, e, agora, sai definitivamente da caverna,
ficando frente a frente com o real, com a verdade. Ele finalmente, “conhece” a
verdade e entende perfeitamente que antes, quando na caverna, era um ignorante,
vendo sombras e julgando ser a realidade. Segundo Platão, poucos chegam nessa
etapa.
Ao
se deparar com a Luz da verdade, do conhecimento, identificados na alegoria de
Platão pela Luz do sol, o preso que consegue libertar-se das cadeias, já começa
a sentir os primeiros problemas causados
pelo “conhecimento”:
1)
Seus olhos, agora desconfortáveis, são ofuscados por conta dos
longos anos vividos na escuridão da caverna;
2)
Sente a necessidade, incontrolável de voltar à caverna para tentar soltar
seus companheiros de infortúnio, pois o conhecimento da verdade não lhe permite
mais viver tranquilamente enquanto lembra-se de outras pessoas, seus
companheiros, que ainda estão vivendo na completa escuridão da
ignorância, o que denota a inquietação e responsabilidade trazida pelo
conhecimento;
3)
Sofre muita resistência dos seus antigos companheiros de prisão ao tentar
abrir-lhe os olhos para que, também, assim como ele, conheçam a verdade.
Afinal, é bem mais cómodo ficar na zona de conforto que sair em busca do
conhecimento.
4)
Como insiste em levar o conhecimento adquirido adiante, aos outros, é,
finalmente, morto por seus próprios companheiros. De facto, muitas vezes o
conhecimento poderá ser responsável por traumas irremediáveis.
A decisão por querer conhecer é algo de extrema
responsabilidade e que trás um imenso peso ao ser humano. Chegar ao
conhecimento, entretanto, não é nada fácil. Por isso mesmo, muitas
pessoas preferem continuar na comodidade e na inércia da ignorância. É preciso
percorrer um longo e árduo caminho para chegar ao conhecimento.
Outra reflexão vinda da religião:
Paulo
um dos apóstolos dizia:
-
“eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria
eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás”
Paulo
passou a viver o conflito existencial que somente aquele que “conhece” vive. A
luta agora, depois de ter “conhecido”, é contra o mais difícil inimigo a ser
enfrentado: sua própria natureza, que teima em fazer aquilo que a sua própria
consciência, agora espiritual, lhe diz para não fazer:
- Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não
quero, esse faço.
Resultado: tristeza, frustração,
decepção, sentimento de impotência e insatisfação. Tudo isso descrito num
profundo brado de lamento e melancolia por ter chegado ao “conhecimento” que
chegou.
Conclusão: Paulo: “Desventurado homem que sou!
Na
minha visão radical, ao reconhecer a guerra interior e o facto de se acharem
cativos do pecado os crentes exclamam-se muitas vezes: “Desventurado homem que
sou!”
É
verdade que dizemos com frequência "porque raio eu quis eu saber de
mais", e repetimos isto sempre que a verdade que descobrimos e o
conhecimento que adquirimos mostra-nos uma realidade mais difícil do que imaginávamos
no passado.
Tal
como na Teoria do Conhecimento a verdade é que uma vez iluminados pela luz da
verdade, nunca mais conseguiríamos viver novamente na escuridão da ignorância.
Tendo em conta as dificuldades de conviver com o
conhecimento, o que faríamos “se pudéssemos aconselhar o ignorante?” Diríamos
para continuar na sua ignorância para não se arrepender de ter conhecido?
Estaríamos a ser correctos ao fazer isso?
Então,
mas ignorância é Felicidade, ou Não?
A
resposta fácil e básica é esta, e é resultante dos estudos que fiz para
escrever sobre isto:
- Depende do que cada um de nós entende por
Felicidade!
-
Depende do objectivo da nossa vida.
Se
nosso objectivo é a uma vida tranquila, podemo-nos manter alheios ao
conhecimento e a seus preceitos.
Na
minha opinião;
Se há alguma possibilidade da ignorância trazer
felicidade, eu prefiro a dor do conhecimento à louca sensação de paz e
tranquilidade que a ignorância aparenta. Detesto a estranha sensação em que tudo
parecer real, enquanto sabemos que na realidade "são apenas sombras".
Preferir
as sombras à verdade, quando temos a possibilidade de conhecer a verdade, é um
ato tão louco quanto pode ser.
Mas o medo de sabermos que saindo das
sombras nunca mais vamos querer voltar para elas, leva meio mundo a continuar a
achar que a ignorância é felicidade.
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